Senhores, não fui ao jogo ontem. Força maior que a vontade de ir à Boca mobilizou-me. A vida é assim mesmo; nem sempre fazemos o que queremos, anunciando, para nosso desagrado, que não somos capazes de ter em nossas mãos uma roca onde possamos fiar os eventos mais desejados. Ecos do jogo, entretanto, chegaram aos meus ouvidos, dando conta do Lobão atacando, tentando infiltrar-se na defesa do Guarani de Venâncio Aires sem êxito. Santiago e Sandro Sotille, que contra o 14 de Julio pareciam afinada dupla de bailarinos, antevendo jogadas, um servindo o outro de forma talentosa e altruísta, contra o Guarani, na triste noite de domingo, deram de cara na muralha humana que o técnico Mazzaropi armou, frustrando seus respectivos sonhos de fazer gols e, por tabela, frustrar os sonhos da nervosa e irritada torcida que se agitava na arquibancada, querendo mais atitude do Lobão. Bem, se o ataque não teve competência para fazer, Rudi, o Maragato, num escanteio cobrado por Júlio, aos quarenta minutos do primeiro tempo, numa estocada de cabeça, fez a torcida arrancar da garganta o grito de gol, que ali se alojara como se fosse um abacaxi com casca e tudo mais. O zagueiro-goleador ofereceu seu gol à esposa grávida e à torcida, mais que nunca grávida de esperança na vitória do Lobão. Esperança malograda, entretanto. No segundo tempo, aos 34 min, aconteceu o inesperado. Marcos Tora, antecipando o sono noturno, vacila no lance; Rudi, provavelmente enceguecido pelo gol que dedicara à veneranda esposa, enreda-se nas próprias pernas; e Aládio, com agilidade de hipopótamo em "slow motion", junto aos dois primeiros, assina a coletiva falha, decretando o gol de Carlinhos, fazendo Cássio, o Muralha, humilhado, ir ao fundo da goleira e recolher a bola que se aninhara em seus fundilhos. Uma ducha de gelo, de lancinantes pontas, desabou sobre a torcida, tornando-a raivosa, disposta inclusive a roer o concreto da arquibancada. O time, evidentemente, tentou reagir. Mas foi uma reação de boxer após haver ido à lona vítima de um "cross na mandíbula". Como sofrimento tem limite, Paulo Roberto Chaves Cardoso, Sua Excelência o árbitro, trinou o apito, terminando a partida. 1 a 1 no placar... Resultado inesperado, que fez a arquibancada arrancar de sua garganta sons de uma trágica opereta. Esperamos que, no próximo jogo, os guerreiros arranquem das entranhas a rútila vontade de vencer. É o que todos nós esperamos.
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Manoel Magalhães.
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