sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A noite dos garçons.

O Lobão reencontrou ontem à noite seu melhor futebol, vencendo o Rio Grande, o Vovô, por 2 x 0 sob o embalo de sua entusiasmada torcida, deixando-o ainda mais perto da Primeira Divisão. Desde os primeiros instantes da partida, o áureo-cerúleo mostrou-se centrado, pegador, decidido realmente a superar a má fase, provando que a sacudida do vestiário, protagonizada pelos homens fortes do Pelotas (César Sampaio, Aleixo e Gastaud), funcionou. Embora empreendesse pressão ao Rio Grande, a primeira chance de gol foi aparecer só aos 17 min. Numa jogada ensaiada, Axel deu uma bola com açúcar a Michel, que cruzou encontrando Flávio Dias na pequena área. Ele cabeceou forte, mas o goleiro Jonatas, bem colocado, evitou o que seria o primeiro gol do Lobão. Em outra oportunidade, aos 21 min, Goiano, cobrando falta, chutou firme. A bola bateu na barreira e, temperamental como diva de ópera, foi beijar o travessão, arrancando gritos agônicos da torcida. O Vovô, por sua vez, brandindo sua bengala, levava perigo à baliza de Cássio. Aos 44 minutos, o endiabrado Bruno Siqueira tabelou com Flávio Dias, deixando rastro de mel na pequena área. A bola, entretanto, àquele minuto, disse não às pretensões de Bruninho, saindo para fora. Encerrava-se, pois, um primeiro tempo de arrepiar as mais duras couraças. Veio o segundo tempo e a adrenalina, dentro e fora do campo, atingiu picos elevados. Nem bem havia transcorridos 5 min, Goiano deu ao lateral direito Cleiton uma bola convenientemente enfeitada sob uma bandeja. O arremate forte foi pela linha de fundo, arrepiando ainda mais a arquibancada, que, entendendo o grande momento do time, aumentou o grito de guerra. A noite foi realmente dos garçons. Michel serviu uma bola com gosto de goiabada cascão a Goiano, que, de virada, mandou por cima do travessão, fazendo a torcida sonhar com uma bola recheada de confeitos enfiada nas redes. Aos 11 minutos, o sonolento príncipe etíope de outras jornadas, em lançamento de antologia, deixou o atacante Michel cara a cara com o arqueiro do Vovô, o qual, em segundos, soube que a bola, que traçara volutas na azulada noite da Boca do Lobo, teria só um destino: as redes. E foi o que aconteceu. Num instante de rara beleza plástica, Michel cobriu o atônito Jonatas, enfiando a bola em seu destino: o fundo da baliza. Estava decretada a abertura do placar. A vibração estourou na arquibancada como há muito tempo não se via. Michel, batendo a mão no peito, sob o coração, correu pelo campo sorriso pingando mel. Imediatamente Agnaldo Liz fez entrar Antonio Carlos e Thiesen, para dar mais consistência à bastilha áureo-cerúlea. Em contra-ataques, o Pelotas ameaçava o patrimônio do Vovô, que, realmente, perdera os óculos. Através de Flávio Dias, o Lobão teve duas oportunidades de ampliar o placar. O destino, porém, complacente com o atacante, disse: faz teu gol, Flávio. E ele fez. Aos 47 minutos, recebeu uma bola cheia de afagos dos pés de Jorge (que entrara para ganhar confiança). O goleiro Jonatas defendeu o primeiro chute, mas, no rebote, o matador fez o que um matador tem de fazer, matar. 2 x 0 no placar. Explodindo de entusiasmo, o atacante arrancou a camiseta e correu para o abraço. Logo em seguida o árbitro trinaria o apito, finalizando o jogo que deixou o Lobo da Avenida mais que nunca vivo na competição. Mas o espetáculo ainda não havia terminado, não. Flávio Dias e Jorge Preá, os matadores do Lobo, no alto da tela que divide a arquibancada do gramado, cantaram juntos com a torcida. O “vamos subir Lobo” invadiu a noite de quinta-feira, deixando-a ainda mais elétrica e vibrante. Depois, agradecidos pelo grito que nasceu da escancarada garganta da torcida azul e ouro, jogaram as respectivas camisetas aos torcedores, que as disputaram como troféus. Assim, pois, encerrara-se o embate entre Pelotas e Rio Grande. O tão sonhado triunfo virara realidade.
Manoel Soares Magalhães.

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