Fui um dos últimos torcedores a deixar a Boca após o jogo contra o Sapucaiense. Havia ainda algumas pessoas por lá, olhando meio tontas para os lados, sem entender o quê havia ocorrido com o time, que jogo a jogo desanda assustadoramente. Desliguei o rádio e fiquei em silêncio, tentando entender o que levara aquele grupo de jogadores a tamanha falta de motivação. Os quero-queros, aliviados, tratavam de se acomodar em seu ninho após o jogo. Permaneci quieto, fitando-os em seu pequeno minifúndio. Vendo-os ali, solitários, aconchegados, lembrei-me do que eles representam no imaginário do pampa gaúcho. São sentinelas... Seu canto libertário ecoa pela vastidão verde, onde em cada centímetro, como flores do campo, habita a alma do gaúcho... Do gaúcho destemido, guerreiro... Aliás, falando em guerreiro... Onde foi parar a alma guerreira dos atletas do Esporte Clube Pelotas? Que houve com brio de homens que tinham por objetivo chegar à Primeira Divisão do Futebol Gaúcho, e, de repente, perderam o rumo? Hoje, não dignos de ouvir o canto do quero-quero que ressoa durante o jogo e, também, nas silenciosas noites da Boca do Lobo, insuflando a alma dos guerreiros de ontem, de hoje e de amanhã. Quem sabe um passeio pelo gramado, à noite, meio ao silêncio das arquibancadas, ouvindo este emblemático canto, eles não despertem outra vez o adormecido espírito guerreiro? Espírito que se adormeceu em algum canto da alma, a qual, bem sabemos, grita para ressuscitá-lo. Àqueles que apurarem bem os ouvidos, certamente ouvirão o som do choque de espadas, de cascos de cavalos escavando o chão... É o vento morno da quase primavera de 2007 trazendo do passado ruídos de batalhas sangrentas... Embates de gaúchos defendendo seus domínios, suas mulheres, sobretudo seus sonhos... Escancaradas gargantas de homens de brio, que não temem a morte, lutando até a última gota de sangue no sentido de coroar de êxito o sonho de todos. Sim, se andarem pelo gramado entregue ao silêncio, ouvirão vozes que se jogam do passado em direção ao presente, instando-os à luta. O canto do quero-quero far-se-á presente, dando à cena requintes de realidade. Gemidos e lamentos também serão audíveis... Mas para lembrar-lhes que a vontade de lutar tem de ser mantida até o fim. A grandeza de um estado (de um time) não se faz gratuitamente. O sangue e o suor derramados adubam a terra, tornando-a fértil. Nela, os sonhos florescerão. Sim, um passeio faz-se necessário pelo gramado à noite. As arquibancadas vazias e silenciosas como testemunhas, além, evidentemente, do distante cruzeiro do sul. Ouvir a própria alma encarcerada, gritando para libertar-se, é o combustível que esta fazendo falta aos atletas do Esporte Clube Pelotas neste momento. Deixem-na sair recendendo a sangue e lágrimas... E chorem se quiser. Para não chorar depois.
O quero-quero tem muito a nos
falar de coragem, bravura...
É disso que o Lobão tá precisando
agora...
falar de coragem, bravura...
É disso que o Lobão tá precisando
agora...
Manoel Soares Magalhães.
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