Pois é, o gandula é um personagem de inefável tragicidade. É o jogador que não deu certo. Mero coadjuvante numa partida de futebol. Fica ali, na lateral do campo ou atrás da goleira aguardando o instante em que pegará bola e, apressadamente ou não, a fará chegar às mãos do goleiro. Tudo depende de como está o jogo. Se o time da casa estiver ganhando, o gandula é acometido de uma preguiça antediluviana. Fará de tudo para retardar a bola.
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Às vezes chega ao cúmulo de escondê-la do goleiro, que fixa o árbitro com cara de coroinha. Entretanto, se o time da casa, por azar ou incompetência, tiver o placar em desvantagem, ele se multiplica. Ah! Ganha fôlego extra, endereçando ao goleiro não uma, mas dezenas de pelotas. Faz das tripas coração para apressar o jogo, escavando a grama como cavalo no partidor, punhos cerrados, mordendo os lábios. Tal inconstância faz do gandula um personagem trágico, algo shakespeariano.
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Na Boca, este ano e em anos passados, o gandula tem interpretado seu papel com fé de romeiro, perfeitamente afinado com o goleiro Cássio, que o tem como indispensável peça na intrincada engrenagem de uma partida de futebol. Não raro eles se estranham, desentendendo-se quanto ao que fazer com a bola – notadamente quando ela está elétrica, arremessando chispas às alturas. Mas, logo voltam a falar a mesma e esotérica língua, também entendida e falada pelo time inteiro, estabelecendo grande e comovedora comunhão, movidos pelo objetivo comum: a vitória.
Manoel Soares Magalhães.
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