quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Choro de viúva.

De ontem para hoje tenho pensado muito em Nelson Rodrigues e em suas sublimes crônicas, consciente de que posso chegar, tão-só, a altura de seus tornozelos, tamanha era a inspiração e a genialidade coroando-lhe a fronte. Recorro a seu estro de além-túmulo para que me responda a seguinte indagação. O que impulsionou Sapucaiense, Ipiranga de Sarandi e Ypiranga-Ere a entrarem contra o Lobão no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da FGF? Alegam que o time pelotense teria escalado quatro jogadores de série A, quando, na verdade, apenas três poderiam jogar, de acordo com o regulamento da segundona gaúcha. Na verdade foram escalados, realmente, três jogadores, já que Axel, a razão da pantomima, é egresso de um time paulista da série A2, portanto, reconhecidamente divisão não especial. O cronista, em vida, sorriria tragicamente e, quase num sussurro, diria: coisa de viúvas desesperadas. É isso ai. Os dirigentes dos respectivos (e perdedores) times choram o marido perdido, ou melhor, os pontos perdidos em campo, e bem perdidos, aliás. Derramam ignóbeis lágrimas, filhas do oportunismo mais abjeto. Jogam-se, presa do desespero, sobre a urna funerária, aos coleios, rasgando roupas, arrancando cabelos, protagonizando fantástica apresentação de ópera bufa. Que patético. Têm pessoas cuja vocação para a comédia é inerente à pele. Fazem de tudo para se fazer notar, ainda que o palco seja o chiqueiro de suínos. Os dirigentes dessas equipes, unidos pela desesperada viuvez, deveriam dedicar-se, respeitosamente, a um exercício de contrição, reconhecendo a pequeneza da iniciativa, e, sobretudo, dar valor ao time que, em campo, soube impor-se, ganhando legitimamente os pontos disputados. Mas não. Em vez do cavalheirismo, optaram pelo choro, pela lamentação de opereta. Ah, pobres viúvas e suas lágrimas de crocodilo!
Manoel Soares Magalhães.

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