sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Jonas e o goleiro.

A solidão do goleiro em seus domínios assemelha-se a solidão de Jonas enfiado no estômago da baleia. São estados de ser co-irmãos, que se compreendem, compartilhando o mesmo e comovente drama existencial. Jonas, para quem não sabe, foi um desobediente servo de Deus. O Criador pediu-lhe que fosse a Nívive, onde os homens praticavam o mal, e lhes dissesse que seriam castigados. Para escapar do assédio do Ser Supremo, Jonas embarcou num navio que ia para alto mar. Entretanto, com receio de que Deus o visse, abandonou o convés, onde estivera apreciando um belo dia, e foi deitar-se no porão da embarcação. O Criador, porém, estava de “olho” no fujão. Irado, fez desabar sobre o mar forte tempestade. Jonas, adormecido, não desconfiava do perigo que se lhe ameaçava a vida. Entretanto, um marujo foi acordá-lo, pedindo-lhe ajuda. O profeta subiu ao convés e, num súbito esclarecimento, percebeu que a tempestade fora causada por ele, por sua desobediência a Deus. Pediu, então, que fosse jogado ao mar, intuindo que, com isso, a tempestade ir-se-ia em direção ao horizonte. Assim, foi atirado meio aos sombrios vagalhões, e a tempestade amainou. Deus, para salvar seu servo, enviou-lhe grande baleia, que o engoliu. Recebeu a incumbência de ir a Nívive e cumprir a profecia de que a cidade seria destruída num prazo de quarenta dias. Durante a viagem, Jonas, aprisionado ao ventre da baleia, refletiu sobre sua inicial recusa, tendo como companhia a solidão lhe roendo por dentro. Com relação ao goleiro, a exemplo de Jonas, tem sua existência limitada à pequena e grande área, refletindo sobre a missão de salvaguardar sua baliza.
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Evidentemente que pode ir além destas fronteiras, dependendo da circunstância do jogo. Tal decisão, porém, pode custar-lhe caro em demasia, ou, em caso de sorte, aumentar-lhe a fama de ungido pelos deuses. Para este personagem – assim como para aquele outro – não existe meio termo. Será ovacionado pela arquibancada como um deus mitológico, ou, na pior das hipóteses, ver-se-á apedrejado e queimado em praça pública como um Judas de Sexta-feira Santa. A decisão, que será redentora ou sacrificadora, foi pensada na mais tensa e carnívora solidão. Imaginemos a cena. O jogo começou. Cássio, aquecido, alerta, observa seus companheiros em campo. Seus olhos não piscam, coração rufando como um surdo. Sente-se de corpo presente, mas, em verdade, sua alma ocupa outro espaço tempo, aprisionada a mais pesada e espasmódica solidão, semelhando Jonas a caminho de Nívive. De repente o lance. Urge abandonar seu minifúndio às pressas. O resultado da decisão, como já foi dito, o consagrará ainda mais, ou, no mínimo, o transformará num perdedor. Imaginem se ele tivesse pego um dos dois pênaltis convertidos contra o Pelotas no Jogo das Missões? Estou certo de que aumentaria alguns centímetros a altura da estátua de corpo inteiro que o clube, penso, deve erguer na Boca em sua homenagem. Realmente é dura a vida do goleiro. É penosa a existência dos “profetas” de Deus. Ambos, cada um em sua pecurialidade, estão à merce de intraduzível solidão.
Manoel Soares Magalhães.

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