sábado, 4 de agosto de 2007

Com unhas e dentes.

Pra cima do Bagé, Lobo!

Há muito que joguei no fundo da gaveta meus sonhos de grandeza. Jazem como figurinhas enodoadas de tempo. De quando em quando vou lá, entreabro a gaveta e olho para dentro. Um olhar extraviado percorre as minúcias, revirando-as mentalmente. Depois, enfadado, rodopio sob os calcanhares, e me afasto. Que fiquem fechados, pegando pó. É pra isso que servem, afinal, os sonhos de grandeza.
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Entretanto, sem que planejasse, volto à gaveta. Abro-a e fico olhando, tentando entender o mistério de assim permanecer, hirto, na vã contemplação. Decididamente o nicho de velharias não é mais o mesmo. Há, meio ao bolor que se apossou dos objetos, algo estranho. Uma novidade que, pouco a pouco, veste-se de primavera. O que será? Já arrisco mexer numa coisa ou outra, buscando resposta.
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Quarta-feira passada, após o Lobão haver vencido o Vovô por um gol a zero, tive a iluminação. Era isso! Voltara a sonhar com a possibilidade de ver o áureo-cerúleo evadir-se do abismo em que mergulhara. Tornei a gaveta, às pressas. Abria-a e olhei. Derramei o mais longo e meloso olhar em seu interior, devassando-a total e inteiramente. Sim! Voltara a sonhar com ímpeto de jovem, que sonha sonhos ao som de fanfarras.
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Considerando a campanha do Pelotas até aqui, o sonho não me parece inconcebível, pois, nesse gênero de competição, muito pegada e sofrida, fazer 100 por cento em quatro jogos enche de entusiasmo qualquer renitente torcedor. Domingo, contra o Grêmio Bagé, o áureo-cerúleo põe em xeque esta invejável condição, a exemplo de um campeão de boxe que, ao desafiar alguém, coloca em disputa seu cinturão. Urge dizer que não será jogo fácil, não. O embate entre pelotenses e bageenses, em termos de futebol, é de lascar. Não raro o bola sofre como solista de ópera, deixando um rastro de lágrimas no gramado. No último encontro, na Boca, dava impressão de que, a qualquer instante, um jogador deixaria o campo de maca sob o som de uma cantada fúnebre, tamanha a violência dos lances. Imagino jogos como esses apitados não por um árbitro, via de regra amedrontado, mas pela polícia de choque. Ainda assim haveria instantes em que os policiais, diante da ferocidade dos zagueiros, desejariam abandonar os gramados às apalpadelas, absolutamente zonzos. Portanto, domingo, jogando feio ou bonito – abrindo mão da violência – o Lobão defenderá com unhas e dentes seu “cinturão”. Que assim seja.
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Manoel Soares Magalhães.

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