quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Michel, o ungido.

Existem gols que se realizam inicialmente em sonho. Depois se materializam em campo e explodem na arquibancada. Aconteceu exatamente isto segunda-feira à tarde na Boca, pelos pés de Michel aos 35 minutos do segundo tempo, quando o jogo entre Pelotas e Internacional de Santa Maria estava encardido. Voltemos, entretanto, levemente no tempo, antes de entrarmos nestes detalhes. Senhores, que surpresa fantástica a presença da torcida áureo-cerúlea na fria tarde de agosto, vento sul soprando insistentemente. Se alguém ainda desconfiava de que nós torcedores não estamos unidos ao time, é de bom alvitre pensar de forma diferente. Que espetáculo a parte! Aliás, a promoção de levar um amigo ao estádio e pagar tão-só uma entrada caracterizou-se pelo acerto, contabilizando-se cerca de 4.500 torcedores em estado de graça. Havia em cada rosto, jovem ou velho, o mesmo entusiasmo e vibração. No fundo da carótida a determinação de ver o time, mais uma vez, vitorioso. Quanto ao jogo, começou pegado, com jogadas ríspidas de ambos os lados. Uma partida que se fazia no meio de campo, congestionando-o. O Lobão, consciente de que precisava ganhar, pois jogava contra um adversário direto na disputa por uma das vagas de acesso à Primeira Divisão, buscava insistentemente o gol. O time de Santa Maria, porém, bem distribuído em campo, oferecia resistência, não deixando passar nem pensamento. Se olhássemos bem, provavelmente veríamos entre os beques o presidente do Inter e sua veneranda sogra, dando chute para todos os lados. Flávio Dias e Jorge Preá, nossos “matadores profissionais”, bem marcados pela sogra, não conseguiam levar real perigo ao gol de Luciano.
De Repente, numa jogada de rara beleza plástica, Rudi, nosso comandante charrua (que seria depois expulso de campo na companhia do atacante inimigo Alê Menezes, após troca de “carícias”), partiu em direção à zaga contrária, disposto a invadir a baliza que a sua frente se descortinava. Entretanto, resolveu chutar a bola, a qual, caprichosamente, carimbou um zagueiro, frustrando seu plano de conquista, e, claro, frustrando-nos dos cabelos aos sapatos. Ai foi a vez de Axel protagonizar jogada de cinema. Aos 43 minutos, Goiano bateu escanteio pelo lado esquerdo. A bola traçou linda parábola no ar e foi de encontro a Axel que, de surpresa, cabeceou em direção ao ângulo da goleira de Luciano. Edinho Matos, entretanto (ou seria a sogra?), interceptou a trajetória da bola, evitando o que seria o primeiro gol do Pelotas. O grito de gol se alojou na nossa garganta como um abacaxi com casca. No segundo tempo, o Lobão voltou mais determinado, encurtando os espaços do time contrário. O futebol do lateral Cleiton se manifestou de forma límpida, translúcida. Em duas oportunidades deixou os homens de frente cara a cara com o goleiro. No primeiro lance Jorge teve a bola a sua feição, mas a sogra, entretanto, gritou que ele era um cabeça-de-bagre. O atacante se desconcentrou e a “mandou” por cima do travessão.
No segundo lance, fez um cruzamento, descobrindo Douglas desmarcado perto da pequena área. Desajeitado, cabeceou para fora, aumentando o tamanho do abacaxi que se alojara em nossa garganta. Aquela altura do jogo sentíamos cheiro de tragédia no ar – que se anunciara em outras ocasiões e se cumprira. O Internacional, aproveitando-se deste péssimo augúrio, jogou-se a frente com mais ímpeto, levando perigo ao arco defendido por Cássio. A arquibncada trovejou como um deus druídico pedindo Michel, pois antevia iminente apresentação de trágica opereta na Boca. Agnaldo Liz, que não é bobo nem nada, pois sabe que a voz de Deus e a voz do povo, sacou Preá do time, enviando-o mais cedo para o banho. Douglas o acompanhou, entrando em seu lugar Vicente, vindo de lesão. Michel, o Décimo Segundo Mandamento de Moisés, entrou em campo ovacionado. Pois é... Ele realizou seu gol quando o estádio inteiro se imaginava protagonista de uma grande e triste ópera. O presidente do Internacional e sua excelentíssima sogra já comemoravam o torpe empate. Eis que o ungido Michel, numa brilhante jogada, fez o que todos nós esperávamos que fizesse, isto é, que materializasse o sonho tão bem urdido no recôndito da concentração.
Livrando-se de três marcadores, chutou em direção ao gol. Para nossa felicidade, a bola desviou na sogra e entrou no cantinho da baliza de Luciano. O sonho de Michel explodiu meio a torcida como uma chuva de estrelas, levando o torcedor ao nirvana. Empoleirado na tela de proteção, ergueu o punho fechado para o céu, abrindo um dos mais luminosos sorrisos já visto na Boca do Lobo. Sentimos ímpeto de agarrá-lo e, num cortejo de exaltação, carregá-lo pelo campo. Portanto, numa atípica tarde de segunda-feira, voltamos para casa mais líder que nunca... Um pouco mais próximo do nosso objetivo. Se apurássemos bem nossos ouvidos, meio aos gritos de entusiasmo da torcida áureo-cerúlea, ouviríamos um sentido pranto... O choro da sogra do presidente do Internacional de Santa Maria, acompanhado, evidentemente, de seus profundos suspiros.
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Manoel Soares Magalhães.

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