Pena que a gente não possa murar o quintal de nossa infância. Sim, murar. Deixá-lo isolado, distante do olhar corrupto. Certamente seríamos mais felizes, pois, na medida da necessidade, a ele recorreríamos para restabelecer as energias e, sobretudo, recobrar o encanto pela vida. Lembro-me bem do quintal de minha infância... Pátio relativamente pequeno, porém recheado de mistérios. Tinha até índio! De quando em quando piratas... Índios e piratas... E o pé de cinamomo?! Grande, galhos nodosos. Eu os percorria como um macaco, ágil e brincalhão. Sobre sua amigável sombra construí um campo de futebol... Ah! Que estádio! Imensas as arquibancadas... A torcida se agitava esperando os times entrarem em campo... O domingo era dia imensamente esperado. Dia de clássico. Aliás, Qualquer domingo, na imaginação de um garoto, é dia de clássico. Eu entrava no gramado compenetrado, imaginando os gols que faria... Artilheiro não pensa diferente. Aposto que todos são assim, sonhadores, arquitetos de seus caprichosos e admiráveis gols. O campo, na verdade, era de chão batido. As goleiras constituídas de tijolos... Os jogadores adversários também lascas de tijolos, por entre as quais eu conduzia a pelota em direção ao gol. Entre um e outro drible em autênticos pernas- de-pau, narrava o jogo, dando ênfase ao talento e genialidade do artilheiro. Havia em minha imaginária chuteira cicatrizes feitas à gilete, marcando os gols feitos... Ao fuzilar o goleiro, corria para a torcida... Correr não; voava como uma águia em pleno céu azul. Após a partida, suado, deitava-me de costas no chão, observando imensos elefantes brancos se dirigirem ao horizonte. A meu lado as chuteiras... Mais duas cicatrizes brilhavam ao sol, somando-se as já existentes... Pois é, aquele menino descerrou as janelas de sua casa na manhã de domingo. Olhou a rua. Malgrado inexistisse o quintal de sua infância, estava feliz. Feliz porque haveria jogo na Boca... Pelotas e Ypiranga de Erechim... Não exatamente um clássico, mas reeditaria a mesma emoção de tantos jogos, clássicos ou não, disputados na realidade ou tão-só em sua imaginação.
Manoel Soares Magalhães.
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